Momento

TORCER PODE RESULTAR EM OBRA DE ARTE (fico devendo a referência)






quarta-feira, 8 de junho de 2011

NARRAÇÃO PEGAJOSA

Pegajosa, bajulatória e parcial. Assim pode ser definida a narração de Galvão Bueno durante os 15 minutos em que o jogador Ronaldo, o Fenômeno, permaneceu em campo na sua despedida do futebol no sofrível Brasil 1x 0 Romênia, esta aliás uma seleção de segunda categoria. Foram 15 minutos de louvaminhas, em que Galvão Bueno se superou nos exageros em seu ofício de vender emoções para milhões de brasileiros que assistiram a partida, transmitida com exclusividade pela Rede Globo. Em um quarto de hora, anotei nada menos do que 31 exageros do narrador.Não vale à pena falar de todos. De cara, logo quando Fred saia de campo para Ronaldo entrar, o cupido Galvão se derramou: “Dá um beijo nele, Fred”. Logo depois, como se quisesse transferir para o outro a emoção que o dominava, ele disparou: “Você tá chorando Casagrande”. Até parecia que uma nação de cegos via o jogo pela televisão. Foi Ronaldo entrar em campo e Galvão constatar: “As câmaras estão em cima dele”.

Merecedor das homenagens pelo muito que jogou na sua carreira, dir-se-ia que Ronaldo entrara em campo para ficar parado, a julgar pelo comentário do narrador-mor da Globo, como se mais uma vez estivesse diante de público que não enxergasse: “Ele [Ronaldo] se desloca. Foi para frente”. O pior viria no gol que Ronaldo perdeu, em posição duvidosa. Desta vez, Galvão jogou às favas todo o pudor e desdenhou as regras do futebol, ao defender: “Também se estivesse impedido, o bandeirinha não tinha que dar...”, Ora, então, Ronaldo está acima das regras que devem ser respeitadas, no impedimento de um craque ou de cabeça-de-bagre?

Com a ânsia de uma cortesã, o pressuroso Galvão se mostrava aflito pelo gol que não saia (Ronaldo desperdiçou três chances claras de gol diante do goleiro Tarusanu, o melhor em campo). A arenga do narrador não tinha limites. Com o Fenômeno em campo, adquire contornos filosóficos: “O tempo vai passando. A única coisa que ninguém pode fazer é parar, para que ele [Ronaldo] continue em campo”. Ronaldo perdeu outro gol e Galvão as estribeiras: “Perdeu de novo. Pare com isso goleiro.”

Como o gol de Ronaldo teimava em não sair, o narrador confessa a frustração de quem vê entrar água no chope “Nós temos toda uma cerimônia preparada”. O juiz acerta ao não assinalar falta em Neymar e Galvão protesta: “Oh, juiz chato, Arnaldo”. Sem fazer o gol, para a frustração maior de Galvão Bueno do que do próprio jogador e de muitos brasileiros mais comedidos, Ronaldo deixa o campo, em companhia dos dois filhos. É saudado como um daqueles homens imprescindíveis de Brecht. O comentarista e ex-jogador Casagrande, candidamente, reconhece a autoria do verso “estes são os imprescindíveis” (os homens que lutam toda a vida dos versos do poeta alemão): “Esta é a abertura de uma música de Mercedes Sosa”.

Por último, o grande final. Galvão se despede herói de chuteiras: “Um beijo enorme. Do tamanho do Brasil, Sabe por que, Ronaldo, a Globo se liga em você”. Claro que Ronaldo merece as homenagens do torcedor brasileiro. Mas não precisa tanta babação de ovo. Galvão, a gente tá ligado em você!

Elieser Cesar

2 comentários:

Tom Correia disse...

Galvão sem noção é irrecuperável: briga com as imagens o tempo todo e não dá o braço a torcer. Ronaldo merecia uma festa mais bonita, achei tudo muito pobrinho. A despedida de Zico, com Jacozinho marcando gol após assistência de Maradona, foi mais interessante...rs

Carlos Barbosa disse...

Fala nisso não, Tom. Eu tava lá, no Maraca, naquela noite em que Jacozinho botou pra ferver. Sim, a despedida do Zico foi a mais empolgante, pois tava em forma, jogou o tempo todo etc. Despedidas de atletas decadentes deixam o gosto amargo do irreconhecimento. Mas valeu, o Gordo deu três chutes em gol, se divertiu como sempre e mostrou as manguinhas de homem de negócio, mandando em jogo de seleção, propriedade da famiglia. E o São Paulo acaba de detonar o Grêmio, quarta vitória seguida, líder invicto, 100%. Será que vai? abr, belíssimo livro, Tom. (carlos barbosa)